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Case Rondônia

by Renata last modified 2008-07-16 14:11

Case apresentado por Alaor Passos no II Simpósio Mudar a Educação para Mudar o Mundo (São Paulo, 5 e 6 de maio de 2007)

 

MUDAR A EDUCAÇÃO INVESTINDO
NA FORMAÇÃO HUMANA DO EDUCADOR

– o caso de Rondônia, na Secretaria Municipal de Porto Velho –

Alaor Passos[1]

ALGUNS ANTECEDENTES

Há mais de três décadas tive a honra e a sorte de conhecer um jovem psiquiatra espiritualista, já então de larga fama no mundo como gestaltista e terapeuta transpessoal. Encontramo-nos pela primeira vez num Retiro de Meditação Vipassana, na Califórnia, onde compartilhamos 21 dias de silêncio.

Não nos aproximamos antes do fim do Retiro. Eu sabia quem ele era, mas Claudio Naranjo não sabia de mim, embora naquela época eu trouxesse comigo uma carta de apresentação de um seu discípulo do Chile, onde primeiro recebi influências indiretas de seus ensinamentos e tive notícias de suas andanças com Oscar Ichazo, um mestre que se instalou em Arica, dizendo-se portador de sementes de cultivo humano necessárias para uma nova era que se abria para o destino da humanidade.

Só nos falamos, brevemente, quando o Retiro terminou. Mas, desde então, pelas décadas afora, viemos nos aproximando, trabalhando juntos, tornando-nos amigos e envelhecendo juntos. Entretanto, cada ano de envelhecimento cronológico representou para mim uma oportunidade de rejuvenescimento de espírito, de valores, de esperanças e de inspiração. Conviver com Claudio Naranjo é assim: ele está sempre trazendo idéias novas, propondo e abrindo novas possibilidades ara a marcha humana neste planeta.

CULTIVO E EVOLUÇÃO DA SEMENTE

Através dele, ajudando a difundir seu trabalho e suas idéias, incorporei-me a um crescente exército engajado na Santa Guerra Amorosa para mudar o mundo, conseqüência imediata do Autoconhecimento Transformador explícito em seus ensinamentos. Estes compõem hoje a Escola SAT, uma nova Escola antiga de sabedoria e prática para promover a arte de ser mais humano, com amplo desenvolvimento do potencial individual e coletivo.

Numa primeira fase, estivemos dedicados quase apenas aos buscadores inquietos, famintos de rumos e alimentos para a jornada da alma. Depois veio a comunidade dos terapeutas, de variados matizes. Formou-se um sólido grupo de discípulos e colaboradores, cujo intercâmbio cultural produziu mais de um impacto na formação de novas e eficientes maneiras de conduzir os trabalhos de forma abrangente e sanadora. Saliente-se a relevante mudança de perspectivas que se operou. Deixou-se de enfocar a doença, com a pretensão arrogante de curas imediatas e localizadas feitas por “terapeutas curados”, portanto, “superiores” aos pacientes, para passar a privilegiar a saúde, como resultado desejável e inevitável do crescimento da consciência, numa via de mão dupla, abrangendo igualitariamente “pacientes” e “terapeutas” em humanização crescente.

Com o passar do tempo, Claudio Naranjo foi revelando-se o Mestre capaz de dirigir magistralmente a orquestra das almas que foram se juntando a ele para tocar a Sinfonia da Vida, cada um no lugar correspondente a seu nível e tocando o respectivo instrumento que lhe corresponderia.

Tal como Sócrates, Naranjo revelou-se como o grande educador de seu tempo. Sócrates como precursor do autoconhecimento que empolgaria a juventude de sua época a ponto de transformar-se em séria ameaça ao sistema de então, cuja curta capacidade de visão o puniria com a morte. Dois mil e quinhentos anos depois, Naranjo se revelaria como o Sócrates de agora, veiculando, através do autoconhecimento transformador, os elementos necessários à recusa de perder-se a vida na mediocridade da acomodação vazia de sentido de viver. Naranjo arremete seus dardos contra a conhecida acomodação frenética dos dias de hoje, plena de angústia existencial, vinda da incômoda sensação de estar-se vivendo “cheio de nada”, à qual opõe o desafio de cultivar-se o “vazio fértil” onde a alma floresce. Sinteticamente, a proposta era e continua sendo: “mudar o mundo, mudando-se a si mesmo, sendo um agente de mudança do próprio entorno”.

ESTÁGIO ATUAL

Estamos agora entrados na terceira fase, a mais abrangente, que pretende contaminar o Sistema Educacional para mudar o mundo, mudando a educação através da humanização do educador. Trata-se de apoiar a este, propiciando-lhe oportunidade e elementos para crescer em seus aspectos integrais como ser e não se restringir apenas ao papel subalterno de transmitir informação para a capacitação de profissionais destinados a um mercado saturado de contradições, impasses e paradoxos. É, sem dúvida, um desafio ambicioso, além de fascinante. O educador, exposto ao estímulo renovador de crescimento pessoal, se transformará também num importante agente de mudança do meio educacional, tornando-se mais apto a desempenhar sua nobre função de verdadeiramente educar, e não apenas “adestrar” tecnicamente dentro dos parcos e desestimulantes recursos atualmente direcionados à área.

Foi assim que nasceu e se expande a idéia do SAT na Educação, o SAT educativo que vem se instalando em várias partes e países. Na égide da transição do segundo para o terceiro milênio, pude ajudar a criar, no Chile, auspiciado pelo Ministério da Educação local, a primeira tentativa de aplicação prática da proposta. Um grupo de professores, recrutados ao longo de todo o país, experienciou com êxito três módulos dos eventos SAT, prévia iniciação nos conhecimentos do Eneagrama e na Psicologia dos Eneatipos que ministrei lá sob a delegação e ordens de Naranjo. Foi um sucesso animador, suficiente para inspirar continuidades e dedicação à elaboração de projetos mais completos e mais adequadamente oferecidos e realizados.

Recentemente estou tendo a oportunidade pioneira de aplicar no Brasil o primeiro “projeto piloto”, estruturado para ser uma “vitrine” que sirva de parâmetro para novas experiências que seguramente florescerão no plano nacional.

Em parceria com a SEMEDE – Secretaria Municipal de Educação de Porto Velho, no estado pioneiro de Rondônia, o Instituto EneaSAT está desenvolvendo, em pleno curso de aplicação, um projeto de cinco módulos para 81 professores da rede pública, especialmente selecionados para tal fim, com total apoio e subsídio financeiro da Prefeitura local.

O primeiro módulo foi um sucesso animador e o segundo está agendado para junho, de 18 a 22, em regime interno, intensivo, de tempo integral e com a colaboração de ampla equipe multidisciplinar especializada.

Os próximos três módulos se darão em 2008, consecutivamente. Espera-se que dali saia o referencial a ser ainda melhoradamente aplicável em outros lugares, do próprio Estado e do País. Entre um módulo e outro, o Projeto contempla importantes atividades (indicações, tarefas, reuniões, apoio) a cargo da SEMEDE e da equipe do EneaSAT.

OS ATORES EMPENHADOS

A mim coube a criação e a direção deste primeiro projeto piloto. Mas nada teria sido possível sem a colaboração concertada e imprescindível de muitos.

Em primeiro lugar, a sensibilidade e a abertura ao novo da própria Secretaria, mobilizada pelo prestígio criativo da professora Geovana Rodrigues Bariani, conhecedora “vivencial” dos eventos SAT que se realizam anualmente em Brasília. Foi ela a “ponta de lança” que abriu os caminhos da burocracia, prévia compreensão e apoio da Secretária, professora Epfânia Barbosa. Vendeu a idéia, detalhou o projeto e submeteu-o à licitação pública com êxito, além de mobilizar o interesse dos professores para a devida seleção.

O trabalho da professora Geovana teve ajuda e precedência de muitas outras pessoas-chave. Entre elas, destaquem-se as seguintes. Gessi Rodrigues Vanzan, pedagoga de recente formação acadêmica, mas de longa busca e inquietudes que a levaram, anos a fio, a participar dos eventos SAT/Brasília, com dedicação e empenho, levando-a paulatinamente a ampliar seus horizontes de atividades domésticas tradicionais para passar a organizar, ampliar e sustentar todas as atividades como representante do Instituto EneaSAT em Rondônia.

Luiz Carlos Marques, economista de profissão e humanista de ação, com seu notório poder de liderança foi, e tem sido, outra peça fundamental na engrenagem que desencadeou na realização do Projeto. Luiz é um pioneiro entre pioneiros, e a força de sua mística pessoal, plena de carisma e criatividade, tem deixado marcas reconhecíveis em muitas partes e atividades. Outro é Rogério Riva com sua inusitada e difícil trajetória de vida, trazendo ao contexto a intensidade de sua experiência humana. Lembre-se ainda da professora Maria Hercília Rodrigues Junqueira, na Unir, incorporada em fase mais recente, mas não de menor importância pelo apoio de sua qualificação e experiências acadêmicas.

A cooperação concertada e harmônica destes que fizeram o projeto acontecer, entretanto, só foi possível como conseqüência de um trabalho longo, lento e antigo que resultou num núcleo considerável de pessoas envolvidas com o autoconhecimento à luz da Psicologia dos Eneatipos, por mais de uma década, em eventos orientados e ministrados por mim, desde que Ione Waltemberg, de saudosa memória, outra pioneira de extraordinários dotes de liderança carismática e confiável, introduziu em Rondônia o costume consistente de trabalho e estudo desta temática. O psicólogo Celso Cornélio, secundado por outros, exerceu também importantes atividades de recrutamento e apoio em fases de transição.

Hoje, professores e pessoas que de outra forma não teriam exposição nem acesso possível a atividades do gênero poderão se beneficiar do que, pouco a pouco, consolidou-se de forma irreversível por meio do sonho pioneiro e da generosa dedicação incansável de um sem número de pessoas envolvidas com suficiente conhecimento de causa e elevado grau de consciência.

RECONHECIMENTO DE ESFORÇOS E INCENTIVO À CONTINUIDADE

Em mais de duas décadas de trabalho pioneiro e continuado no Brasil, a Escola SAT amadureceu condições semelhantes às de Rondônia em muitas outras cidades de regiões. Esperamos que a persistência e o esforço de Fátima Caldas, ao promover este segundo Simpósio em São Paulo, seja desta vez recompensado com o efetivo início de funcionamento da OSCIP. Completará sua função de divulgação e sensibilização de setores prósperos do meio empresarial para que, junto aos que detêm poder de decisão na área governamental, possam direcionar recursos privados para multiplicar experiências similares às que estão acontecendo no Projeto de Rondônia. Não podemos ficar na dependência só dos parcos recursos públicos que neste país se destinam à educação, e são insuficientes até para satisfazer as demandas mais primárias da alfabetização.

Parcerias funcionais com o setor empresarial privado, através da OSCIP como Instituto SATEDUC, serão necessárias para que nosso propósito de mudar o mundo, mudando a educação por meio da mudança do papel do educador, não se converta apenas em sonhos utópicos. É preciso, brevemente, poder dar um arrojado salto de sofisticação que nos permita continuar investindo amplamente na melhoria da formação humana integral do educador. Isso implica no desenvolvimento de nossa capacidade de priorizar investimentos de recursos parcos para melhorar a qualidade, mesmo sabendo que os recursos atualmente disponíveis são insuficientes até para atingir níveis satisfatórios mínimos de quantidade.

A última parte desta breve comunicação deve-se à inspiração sugerida por Silvana Benatti, sendo ela mesma um dos membros da diretoria da OSCIP, encabeçada por Fátima Caldas. Coincidentemente, o papel que cabe à Silvana dentro da diretoria do Instituto é exatamente o de tesoureira.



[1] Alaor Passos é sociólogo e professor do quadro permanente da UnB, Faculdade de Educação. Criador e diretor do Instituto EneaSAT, no Brasil, trabalha associadamente ao Dr. Claudio Naranjo em múltiplas atividades da Escola SAT, fiel aos propósitos de re-educação permanente e incentivando situações afins com o desenvolvimento integral e harmônico do SER. Introduziu o interesse pelo estudo e pela prática da Psicologia dos Eneatipos no Brasil, desde a década de 1980, ininterruptamente crescente até os dias de hoje, a partir do primeiro núcleo formado em Belo Horizonte para os ensinamentos de Naranjo. Como seu representante no Brasil, promove atividades e eventos sucessivos de ensinamento, sendo autorizado a iniciar pessoas nos eventos introdutórios, participar de equipes internacionais avançadas e supervisionar as atividades de todos os colaboradores brasileiros que vão se incorporando à rede e expandindo o alcance dos objetivos da Escola. É ex-funcionário Internacional das Nações Unidas.


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